sexta-feira, 12 de outubro de 2012

1 = O CONTEÚDO DA BÍBLIA



PRIMEIRA PARTE
PALAVRAS DE HOMENS

Começaremos pelo mais evidente da Bíblia, aquilo que ninguém questiona: o fato de ser literatura, quer dizer, seu aspecto nitidamente humano.            


1 = O CONTEÚDO DA BÍBLIA

            A Bíblia contém 73 escritos. { São 73 escritos, quando se consideram Jeremias e Lamentações como duas obras diferentes (como na realidade o são); serão 72. quando se consideram como um só escrito. (Lamentações como parte de Jeremias). } Os 73 escritos estão agrupados em dois "Testamentos", o Antigo e o Novo. Destes, 27 escritos pertencem ao Novo Testamento, que é literatura nitidamente cristã. O Antigo Testamento é literatura judaica.
            O termo "testamento" é uma tradução equívoca do original hebraico berit, que significa "aliança", "pacto". Não se referia à última vontade, mas ao conceito de aliança, aquela aliança feita com Moisés, que é o coração do Antigo Testamento e, depois, aquela que foi selada com a morte de Jesus (Lc 22,20; 2Cor 11,25). Traduzido este vocábulo para o grego (diatheke),começou-se a entender em sua acepção de última vontade, de testamento, e assim se traduziu para o latim (testamentum).
            Os judeus, obviamente, consideram como Bíblia o que nós, cristãos, chamamos de "Antigo Testamento", porque não reconhecem a vinda de Jesus como a do Messias, e os escritos cristãos não têm para eles caráter sagrado. A divisão da Bíblia em testamentos é cristã. O qualificativo "antigo (testamento)" não se deve entender como obsoleto ou como velho, mas como o primeiro com relação ao posterior. Alguns propuseram, por isso, que se falasse antes em "primeiro testamento". Somente se pode falar de "antigo" testamento, quando se admite como real a existência de um "novo" testamento, e essa distinção somos nós, cristãos, que a fazemos. Talvez seja mais correto falar de "Bíblia hebraica", para denotar a propriamente judaica, e de "Bíblia cristã", para designar a inclusão do Novo Testamento como parte da Bíblia por parte dos cristãos.
            Isto tem uma implicação importante: quando encontramos, em algum escrito do Novo Testamento, a menção de "Escrituras" (por exemplo, em Lc 24,27.32.45; Jo 5,39; 10,35; 2Tm 3,15) ou "Palavra de Deus/Senhor" (por exemplo, em Mc 7,13; At 6,2; 8,14), não se refere ao Novo Testamento como tal, mas antes ao Antigo Testamento, visto que o Novo Testamento ainda não existia. Recordemos que, quando se escreveu esta ou aquela obra do Novo Testamento, se fez como um escrito independente dos demais e sem idéia de que mais tarde seria agregado a outros para eventualmente fazer parte da Bíblia.
            A diferença entre a Bíblia católica e a protestante também será considerada quando falarmos dos Apócrifos. Baste por ora adiantar que não é questão de traduções, mas unicamente da admissão ou re­jeição de certos escritos como parte da Bíblia, todos eles judaicos (Antigo Testamento), e nenhum de fundamental importância.
            A ordem em que se encontram os escritos da Bíblia não é a ordem em que foram compostos. Gênesis não foi o primeiro a ser escrito, nem o Apocalipse foi o último. Encontram-se ordenados segundo temas e gêneros literários - todos os históricos juntos, os profetas juntos etc. Exceto o bloco que vai de Gênesis a Reis, a ordem dos escritos do Antigo Testamento pode variar de uma Bíblia para outra. Isto se deve ao fato de que a seqüência é diferente na versão hebraica e na grega (e latina). Retomaremos isto mais adiante, quando falarmos do cânon.
            Originalmente, nenhum dos escritos trazia um título como o que tem hoje. "Gênesis" (a primeira palavra deste livro, em grego, significa "origem, início"; em hebraico é bereshit) não era o título do primeiro escrito que encontramos na Bíblia, nem "Evangelho segundo Mateus" era o título do primeiro Evangelho que encontramos no Novo Testamento. Original era somente o texto. Os títulos foram colocados mais tarde por razões práticas, para distinguir um escrito de outro.
            Nenhum dos escritos da Bíblia estava originalmente dividido em capítulos e versículos. O códice Vaticano do séc. IV d.c. inclui marcas na margem que são divisões em "capítulos" (para Mateus tem 170 divisões que não são os 28 capítulos que usamos; para Marcos tem 62 divisões). Nos inícios do séc. XIII, Stephen Langton dividiu os escritos da Bíblia (em latim) em capítulos. Em meados do séc. XV, Isaac Nathan dividiu cada capítulo em versículos para facilitar as referências às passagens bíblicas, como fazemos hoje. Depois, em 1528, foi impressa a Bíblia completa traduzi da para o latim, dividida em capítulos e versículos por Sanctes Paginus. Em 1551, Robert Etienne publicou o Novo Testamento em grego com sua divisão em versículos e, alguns anos mais tarde, o fez com a tradução da Bíblia para o francês que ele havia preparado. Mc 12,26 proporciona-nos um exemplo da maneira na qual se citavam os textos bíblicos: "Não leram no livro de Moisés (= Êxodo), no da sarça (= capítulo terceiro) como Deus lhe disse ... (segue uma citação textual de Ex 3,6)".  Em Rm 11,2, São Paulo cita 1Rs 19,10, simplesmente mencionando como referência que é uma passagem da "história de Elias". As divisões por capítulos e versículos, embora muito práticas, nem sempre foram acertadas; ocasionalmente, cortam o texto onde não deveriam, por exemplo, o primeiro relato da criação conclui em Gn 2,4a e não no final do cap. I, como supôs quem dividiu este livro em capítulos; o último canto do servo de Javé em Isaías começa no final do cap. 52 e não no 53,1, como o supôs quem dividiu este livro em capítulos.
            A divisão dos textos em capítulos e versículos baseia-se nos manuscritos conhecidos naqueles tempos, basicamente na tradução latina de São Jerônimo (Vulgata). A Bíblia que lemos, em contrapartida, é tradução baseada em manuscritos mais próximos dos originais (tema sobre o qual voltaremos), nas línguas originais. Isso explica por que ocasionalmente nos surpreende a falta de um versículo: este não estava no original, por exemplo, em Mt 17,21; 18,11; Mc 9,46; 11,26; 15,28; Lc 23,17. Igualmente, há duas numerações dos Salmos, uma delas entre parênteses. Isto se deve ao fato de que as numerações foram feitas no texto latino (cuja numeração se preserva entre parênteses). A troca ocorre a partir do Salmo 9: a versão latina tinha como um só Salmo (9) o que em hebraico são dois, 9 e 10. Isso causou uma discordância correlativa: o antigo Sl 10 na Bíblia latina é o Sl 11 na hebraica, e assim sucessivamente.
            Os subtítulos que encontramos (e que variam de uma Bíblia a outra) tampouco são originais. Ocasionalmente, são equívocos: a parábola conhecida como "do filho pródigo" (Lc 15,11ss) não se centra no filho, mas no pai misericordioso, portanto, deveria ser intitulada "parábola do pai misericordioso" - além do que a parábola fala também do outro filho que ficou em casa.
            Do ponto de vista temático, a Bíblia não é tanto uma coleção de verdades eternas, mas um conjunto de testemunhos multiformes da relação de diálogo entre Deus e os homens, relação histórica e huma­namente vivida. Vista do lado de Deus, a Bíblia apresenta a história das ações de Deus na história dos homens, desde as origens até sua expressão definitiva em Jesus Cristo, e projetando-se para o futuro. Vista do lado dos homens, a Bíblia inclui experiências pessoais de muitos indivíduos, seu diálogo com Deus, suas atitudes de obediência ou de infidelidade, suas reflexões e sua sabedoria. Em outras palavras, levando em conta os diversos gêneros literários que encontramos na Bíblia e o fato de que ela abarca mais de um milênio de história, vem a ser a história singular, sempre atual (pois se fazem as mesmas perguntas, e se apresentam as mesmas atitudes humanas) do diálogo entre Deus e os homens, dos chamados de Deus e das sucessivas respostas dos homens. Os diversos personagens encarnam atitudes humanas que freqüentemente são representativas e expoentes das pessoas de hoje.
            Há algo mais que nunca devemos esquecer: os compositores dos diversos escritos da Bíblia escreveram para um grupo de pessoas concretas, para seu povo ou sua comunidade de então, daquele tempo. Isto significa que não escreveram pensando em nós, como já advertimos. Quando Isaías falou e escreveu, o fez para os judeus do séc. VIII a.C., e quando Paulo escreveu sua carta aos Romanos, foi para os cristãos de Roma da década de 50, respondendo a seus problemas e necessidades de esclarecimento que nem sempre são os nossos. Hoje em dia, falariam e escreveriam de outra maneira e a respeito de ou­tros problemas. Mas o que escreveram é em certa medida aplicável ainda hoje, a mensagem central continua válida, pois o ser humano é basicamente o mesmo: suas perguntas, atitudes, angústias, alegrias, esperanças continuam acontecendo hoje.
            Quando se diz "Antigo Testamento", a maioria pensa quase automaticamente em termos de história, a chamada "história sagrada" que líamos quando crianças e que se vê em filmes. Poucos estão conscientes de que a ênfase não havia sido colocada no que supostamente aconteceu, mas no que significa aquilo que se narra, na mensagem do episódio relatado. Por isso, entremesclam elementos mitológicos, anedóticos, históricos e afins. Além disso, se o Antigo Testamento se valoriza apenas como história, se deixarão à margem muitos outros escritos que não narram história, como os salmos, os escritos proféticos, os poéticos e os sapienciais.
            A Bíblia, como totalidade, apresenta do princípio ao fim um denominador comum: a relação de diálogo entre Deus e os homens. O único personagem que perdura é Deus; os outros aparecem e morrem, e são julgados segundo sua relação com Deus. Por um lado, Deus permanece sempre fiel em seu empenho de oferecer aos homens a prosperidade e a paz ao longo de sua história. É fiel à sua "aliança". Por outro lado, os homens se mostram instáveis: hoje, submissos e fiéis; amanhã, rebeldes ou indiferentes diante de Deus, até idólatras. Quando se observam os escritos do Antigo Testamento a partir do lado dos homens, se vê que é uma história das conseqüências de suas atitudes perante Deus: é uma história de êxitos, de alegrias e de fracassos e de frustrações, estreitamente relacionada com sua submissão humilde e confiante ou rebelde e auto-suficiente diante da vontade de Deus. Esta é, em síntese, a perspectiva fundamental a partir da qual se apresentam os diferentes escritos do Antigo Testamento, é o que se percebe muito claramente nos relatos. O Novo Testamento, por sua parte, põe em relevo essa vontade salvífica de Deus manifesta agora na pessoa de Jesus de Nazaré: "Deus amou tanto o mundo que enviou seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16). No Novo Testamento também aparecem, uma ou outra vez, respostas fiéis e respostas distorcidas, até de oposição a essa vontade divina. 

Arens, Eduardo - A BÍBLIA SEM MITOS: UMA INTRODUÇÃO CRITICA – São Paulo: Paulus, 2007. pp 29 – 35.

Nenhum comentário:

Postar um comentário